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Cultura

Cultura - História

 

Episódio 5: Carumbé, um ribeirão...

Ribeirão por vezes de águas escuras, conseqüência da varredura das águas ao longo de seu curso, abraçando a mata, beijando árvores e retirando das margens todo o material orgânico sedimentado. Em outras de águas barrentas, denunciando a ocorrência de fortes chuvas serra acima, sobre sua cabeceira e afluentes.

Ribeirão de águas cantantes, seixos rolantes. De corredeiras rasas com um espumar prateado, processo natural de aeração, oxigenando suas águas e potencializando a vida.

Pelos pastos da fazenda Carumbé muitas trilhas existiam, conseqüência de uma das características natural do homem, a mobilidade. Algumas destas obstruídas e interrompidas pelo ribeirão. Assim, pelo seu leito presenciei a manifestação e o exercício da criatividade se opondo e vencendo adversidades.

O Caboclo na sua simplicidade e rudez, sem saber intuitivamente aplicava a Engenharia.

Na oferenda da natureza, escolhiam sabiamente árvores de caule único. Normalmente escolhia a árvore ideal, o Guapiruvú. Num esforço braçal, após o corte arrastavam estas torras, posicionando-as na transversal sobre o leito e entre bordas do ribeirão.

Pronto! A continuidade das trilhas estava assegurada. Estava também construída uma "pinguela", é assim que são conhecidos estes artifícios de transposição.

Algumas destas "pinguelas" apresentavam certo grau de sofisticação. Para maior segurança e conforto continham também balaústres e corrimão. Tudo firmemente solidário e bem amarrado com cipó.

Não sei precisar em qual período do ano, ao entardecer pelas trilhas que margeavam o leito do Carumbé dezenas de pessoas, homens e mulheres, adultos e crianças para a barra deste ribeirão dirigiam-se.

Distribuídos pelos barrancos, ou mesmo com água pelas canelas, todos lançavam suas varas de pescar ou mesmo linhadas de mão, era um constante capturar de Lambaris e "Cadelas". Assim chamavam uma espécie de Lambari, que na linha da espinha até a calda apresentavam uma coloração avermelhada e na boca muitos dentes.

Isto emoldurado pela montanha de mata virgem avistada na outra margem do Ribeira, com rugidos de macacos a ouvir. No oeste o sol a deitar, refletindo um espectro dourado sobre as águas.

 

Episódio 6: O Poço...

Indistintamente o Carumbé com suas águas ofertava a todos. Em seu curso, numa constância paciente e natural criava e recriava praias, remansos e poços. Destes imagino o "poço da ponte" ser o principal.

Era uma piscina natural. Um espaço de lazer onde todos tinham acesso era só chegar e usufruir.

Ali nas tardes de domingo, sobre o sol de verão a alegria pairava pelo ar. O burburinho, o falar das pessoas dava uma alegre sonoridade ao ambiente. Eram pessoas banhando o corpo e refestelando se no refrigério das águas. O semblante das pessoas demonstrava um bem estar, um renascimento para a nova semana com seus afazeres e preocupações enfrentar.

A consciência do bem coletivo ali era exercitada. Cada qual ao seu modo, sem normas ou regras, contribuía para manter o dique de pedras, responsável pela contenção das águas.

Quem sobre a ponte do alto olhava, podia observar seixos empilhados numa geometria livre, descrevendo uma linha sinuosa emergindo a superfície, interligando as margens e naturalmente represando as águas.

Alguns metros abaixo, carros e caminhões disputando espaços sobre as águas. Seus proprietários com canecas e baldes nas mãos a lava- los.

Nestas águas muito me banhei e brinquei, pude conhecer pessoas, observar comportamentos e características.

Lembro-me de um rapaz chamado Odair, que ao entardecer ao poço vinha se banhar. Com peculiar trejeito possuía um estilo de nadar nada clássico. Era um puxar com as mãos e bater simultaneamente com os dois pés sobre a superfície d'água, projetando seu corpo à frente em solavancos. Tal conduta espirava água a uma altura considerável, atingindo pessoas que lá no alto, do gradil da ponte observava.

Em certas ocasiões, num quase engatinhar, contra a correnteza ele subia o ribeirão, tateando as barrancas argilosas de suas margens.

Das tocas encontradas, com as mãos capturava um peixe de aparência feia, quase pré-histórica. Eram os Cascudos. Num sorriso de satisfação dizia: "um belo ensopado será feito".

O que vou relatar a seguir pode parecer "conversa de pescador", mas acreditem! É verdade verdadeira.

Meu avô ao planejar seu retorno aqui para a cidade de Mogi das Cruzes tinha por hábito alguns rituais, entre estes no Carumbé seu carro lavar. Numa destas oportunidades meu tio Josemir, a pedido de meu avô, com a Kombi para as águas do Carumbé rumou.

Como de costume, no meio do ribeirão parou. Águas em corredeiras, com seu nível no meio das rodas a bater. Portas abertas, tapetes de borracha retirados, lavados e na barranca sobre arbustos a secar.

A porta lateral do compartimento de passageiros, com suas folhas duplas escancaradas, engoliam uma fina lamina d'água que estendia sobre e por todo assoalho corrugado.

Após muito bater água, esfregar e ensaboar a lavagem chegava ao seu final. Agora era retirar o carro das águas. Alguns metros no seco em suave aclive era observar o escorrer, o molhar do chão, dando ao saibro uma coloração forte alaranjada.

Na madrugada seguinte meu avô partiu. Chegando aqui, na atribulação e no muito fazer, após dois ou três dias decide a Kombi lavar. Passado algumas horas, Kombi lavada era hora de no posto buscá-la. Lá chegando, todos queriam saber por onde aquela Kombi andou.

Desconfiado e curioso pela indagação, ele explicou que no vale do Ribeira, na cidade de Adrianópolis esteve. A seguir aparece um lavador com um balde nas mãos a mostrar, um Cascudo vivo na água a nadar.

Cultura - História

INSTANTES DE UMA INFÃNCIA POR JOÃO MARCELO FERRAZ DE CAMPOS.

A região do "Vale do Ribeira" esteve no foco das Forças Armadas. Após o golpe militar de 1964, organizações de guerrilha armada de extrema-esquerda, buscaram estabelecer e instalar nesta região bases de treinamento militar e de difusão das teorias marxista.

O serviço de inteligência das Forças Armadas identificou o Vale do Ribeira como sendo uma das regiões para a instalação destas bases e centro de treinamento de guerrilheiros. Isto, após a prissão de integrantes da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), na cidade do Rio de Janeiro, incluindo integrantes do comando nacional.

Em abril de 1969, o capitão Lamarca já na condição de desertor do Exercíto Brasileiro e como lider da VPR se instala no sertão próximo ao vilarejo de Barra do Areado. Na caça aos guerrilheiros, as Forças Armadas tomam o vale do Ribeira, executam comandos e bloqueiam estradas. Houve confrontos nas barreiras e comandos montados em Eldorado Paulista e Sete Barras. Ocorreram mortes, feridos e aprisionados.

A busca pelos guerrilheiros se intensificava, novos comandos nas estradas obrigam a se embrenhar pelas matas. Por vezes tentaram descer a algum povoado para comprar comida, mas eram denunciados. Emboscados, o rompimento final do cerco se deu 41 dias depois do início do mesmo.

Em 31 de maio, famintos e cansados o grupo resolveu tentar a sorte na estrada. Alguns tomam o ônibus da linha Sete Barras-São Miguel sem ser incomodados. Outros incluindo Lamarca resolvem parar qualquer veículo que viesse pela estrada e tomá-lo. O primeiro a aparecer foi justamente um caminhão do Exército. Seus ocupantes, cinco soldados foram rendidos. O grupo agora vestidos com os uniformes da patrulha, seguem até darem com a última barreira perto de Taquaral. Sem maiores averiguações, a barreira foi aberta.

Naquela mesma noite, os guerrilheiros abandonavam o veículo na Marginal Tietê na cidade de São Paulo, com os soldados prisioneiros dentro. Lamarca e seus homens tinham escapado da maior mobilização da história do II Exército.

Perseguido por mais de dois anos pelos militares, Lamarca foi localizado e morto no interior da Bahia em 17 de setembro de 1971.

Este episódio recente da história nacional teve reflexo em Paranaí. Lembro que tivemos por pelo menos duas oportunidades, o Exercíto efetuando manobras e exercícios no município.

Para a localidade esta movimentação era um evento, pois quebrava a rotina cadenciada no compasso do tempo. Imagine para uma criança que tudo é novidade, ter a oportunidade de defrontar com um cenário militar, visualizando barracas de campana, equipamentos bélicos como metralhadoras, Jeeps e caminhões além dos próprios soldados com suas fardas e adereços.

O Comando Militar pela localização estratégica, fixava sua Base de Operações na entrada da cidade, exatamente na bifurcação Curitiba/ Plumbum/ Paranaí.

Sentido cidade à esquerda e no pé do "morro da antena" existia uma solitária e típica casa "sulista". Destas de taboas a prumo, frestas arrematadas por ripas e apoiada sobre pilares de tijolos. Apresentava um telhado com forte inclinação e também sotão. Suas paredes eram caiadas num rosa queimado e portas e janelas num verde escuro. Nestas ocasiões o Comando Militar dela se apossava, armando suas barracas e tendas no seu entorno. Salvo engano seu proprietário era o avô do Délcio Lara.

Neste período eu meus irmãos Zé Waldir e Bárbara tinhamos como diversão arrumar cestas de fruta e também garrafas de leite, coisas abundantes na fazenda, para ao passar pela barreira militar ofertar aos soldados.

Intuitivamante era o exercício da diplomacia, da política da boa vizinhança. Acredito que este comportamento estava empregnado no ar, era uma caracterítica local. A carência de recursos, a dificuldade de acesso desenvolveu no povo um senso de ajuda mútua, um solidarismo diferenciado.

Após este gesto de acolhida, sempre que aproximavamos tinhamos passagem livre.

Os soldados na maioria eram recrutas, jovens no exercício do alistamento militar obrigatório, com certeza não tinham convicções políticas e ou ideológicas. Isto remete a minha adolecência, década de 80, época que o movimento sindical operário foi intenso. Entre as músicas hino, tinha: Para Não Dizer Que Não Falei das Flores, onde em uma estrofe diz:

"Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer" (Geraldo Vandré)

Assim como chegavam, após algumas semanas como trupe mambembe partiam. Paranaí em sua rotina voltava.

 

 

 

 

 

 

Cultura - História

 

 Foto cedida pelo Autor João Marcelo Ferraz de Campos.

 

 Dando sequência a História narrada pelo escritor João Marcelo Ferraz  de Campos que nos premiou com "Relembrando os velhos tempos de Paranaí", agora teremos outros e na medida do possível ainda muitos outros contos do autor que descreve em detalhes  as lembranças aqui vividas nos tempos de PARANAÍ..

Introdução

Ninguém pode roubar de nossa memória, a nossa história com seus momentos mágicos. Isto são instantes de lembranças da criança que habita este corpo adulto.

São José dos Campos, 15 de fevereiro de 2012.

João Marcelo Ferraz de Campos

 

Registro o meu especial agradecimento à amiga de infância, Maria da Luz Macedo Vitorino, a qual, eu reencontrei na rede social. Sua atenção aos meus questionamentos quanto a local e pessoas foi fundamental.

 

          INSTANTES DE UMA INFÂNCIA- (Por João Marcelo Ferraz de Campos)

 

Assim é...      

Dos minérios, do chumbo ao calcário a aflorar.

De cavernas, grutas e tuneis a mostrar.

De matas nativas, de madeiras nobres, de imbuias e canelas.

Do Gato do mato, da Jaguatirica e Onças na mata a andar.

Do canto do Sabia e do Canário da Terra a escutar.

Da plumagem do Tucano de fraque a contemplar.

De córregos e riachos afluentes desembocar, no Ribeira suas águas deixar.

Do Ribeira em corredeiras ou meandros, na terra seu leito cavar.

Serpenteando serras, vencendo rochedos, no seu curso seguir.

Dos morros e montanhas, de grotas e vales.

Do roçado de mandioca, do milho, da banana, do mamão, do tomate.

Da criação, do gado e do leite.

Terra de religiosidade presente e crendices.

Da benzedeira e do patuá também.

De superstições, da mãe d'água, da mãe d'ouro e do saci travesso, em crinas de cavalo a manifestar.

Pedaço de chão, de sol quase nunca ausente.

De luar em prata a brilhar.

Do sertão, da corda de embira.

De caboclos e quilombolas.

De gente simples, gente boa.

Assim é, Paranaí.

   Episódio um: Andanças

Em Paranaí tive uma bicicleta vermelha "Bordeaux", aquela, cor de sangue. Freio a tambor contra pedal. Ela me acompanhou até aqui em São José dos Campos, seu paradeiro não sei.

Muitos caminhos eu percorri, deslizava nas beiradas do caminho, sobre as sobras de saibro granulado, num difícil equilibrar.

Lembro bem, como a dominei. Após meu primo Paulo Henrique me ensinar, já confiante, eu então desafiei o morro descer. Pra quê!Foi um tombo só! No corpo, a marca física desta aventura eu trago. Na canela uma tremenda cicatriz. A "magrela" teimosamente no seu caminho achou por bem, o arame farpado encontrar.

As férias escolares permitiam a reunião da família tão numerosa. Meus avôs, tios e primos no Carumbé  se instalavam. O cotidiano agora numa nova dimensão. Era um movimento, um andar á cavalo, trator, nadar e também pedalar.

Nas noites após o jantar, era um esparramar de cadeiras no terreiro, para os adultos conversar. Nós crianças até certo ponto a conversa escutar, na maioria das vezes o propósito era brincar.

Nestas ocasiões, ousávamos pedalar mais longe. Atrevíamos a cruzar todo o Paranaí. Juntos de meus primos Paulo Henrique, Erasmo e meu irmão Zé Waldir, nós íamos, cada dupla numa bicicleta. Na garupa, com visão panorâmica a contemplar e numa leitura visual, fotografar.

Já no perímetro urbano, no bar do Bandeira tinha que parar, era para uma gasosa tomar.

Mais a frente à casa do Antônio Lica avistava, bem ao lado um cercado, reservado para embarque e desembarque de suínos. Após uma enorme valeta perpendicular a rua se estendia até o Ribeira. Era a divisa física com o campo de futebol.

Agora podíamos ver, entre eucaliptos organizadamente enfileirados, o campo de futebol. Num relance poderia imaginar gramado ser. Na verdade, era praga rasteira em profusão, de folhas verdes e crespas parecidas a hortelã.

Imediatamente após o campo, existia a casa de um pia, colega de classe. Infelizmente de seu nome não lembro. Era bom aluno, caprichoso tinha seus cadernos encapados com papel pardo recobertos com plástico transparente com direito a etiqueta definindo a matéria.

Na lateral entre o campo e a casa, não existia divisa física, como cerca ou muro. Ao fundo existia um rancho, do qual seu espaço em dia de jogo era ocupado pelos jogadores e populares. No quintal entre a casa e este rancho via se varais com seus arames debruçados sobre varas de bamboo. Havia também um forno, solitário como se aos jogos assistisse, com suas costas em formato de abóbada, de boca quadrada e chamuscada apoiado sobre quatro colunas de tijolos.

Um pouco mais a pedalar, agora visualizava uma reta em declive, no seu ponto mediano, afastada da rua podia visualizar a casa de dona Reinalda, enfermeira. Casa de madeira, de tábuas a prumo, juntas de topo e suas frestas arrematada com ripas. Construída elevada do chão apoiada sobre pilares de tijolos, com acesso ao alpendre por uma pequena escada.

Isto me remete as campanhas de vacinação na escola. Dona Reinalda entre caixas de "isopor" manipulando frascos e seringas e eu na fila temeroso só a esperar, para a injeção tomar.

Sem muito pedalar, o final da reta se aproximava, iniciando uma curva a esquerda. Na esquina era possível visualizar a casa de dona Aracy. Lá era uma parada quase obrigatória, para seus filhos encontrar. Ao lado da casa havia arvores e nelas balanços, onde sempre ficávamos. Ou sentados pelo chão no alpendre a assistir, o Vavá como um malabares, com muito esforço sobre a bicicleta parada, equilibrar.

Logo então após a curva, o centro de Paranaí se apresentava. À direita o posto de gasolina, onde algumas vezes tinha rumo certo. Num canto atrás, havia um monte de latas de óleo vazias. De várias coletava o óleo restante, para o pé de vela da bicicleta, lubrificar.

À esquerda um enorme espaço em aclive. Lá no alto, a igreja, solitária e modesta com suas paredes brancas e até então com uma única torre. Mais a direita o portão da escola, com seu muro de cimento pré-fabricado.

Na esquina após o posto, o sobrado do Mottin. Numa vanguarda construtiva, como se dizia, era "casa de material". No térreo os espaços comerciais entre pilotis, a terminar. Olhando ao alto estava à moradia toda avarandada.

Em frente avistava o bar dos pais do "Panquinha" (Djalma). Lembro um acontecimento. Véspera do Mundial de Futebol no México (1970). A febre era colecionar, álbum de figurinha com os times participantes. Numa oportunidade ao bar adentrar, logo na soleira, uma figurinha jogada ao chão meu irmão avistou. Era "carimbada", dava direito a prêmio. Levamos pra casa uma bandeja de madeira, em seus contornos apliques de marchetaria e um tampo de vidro emoldurando flores vermelhas de Hibiscos.

Logo a seguir, a direita,  existia o Posto Fiscal, controlador de fronteira. Para a rua apresentava suas grandes janelas, de peitoril baixo e de vidraça com retângulos uniformes.

Um pouco mais a pedalar, à direita a carpintaria. Quase em frente à casa de dona Cinira, professora. Sua filha Arlena e minha irmã Bárbara foram amigas inseparáveis. Ao lado a igreja protestante. Um pouco mais a frente voltando à direita, o Bazar Marques.

Algumas pedaladas a frente, a esquerda pode se ver a Prefeitura. Com mais força no pedal, vamos enfrentando um pequeno aclive. Agora quase abandonando o perímetro urbano, a direita avista o prédio da cadeia.

A partir daí, um pedalar solitário a seguir. A nossa direita o Ribeira no seu curso e nós, direcionados e balizados pelas touceiras de capim a beira do caminho, aguardando a ponte chegar.

Após uma curva fechada a direita, deparávamos com a ponte, admirados pelos seus monumentais arcos paralelos e duplos vencendo o rio, unindo o Paraná a São Paulo. Era de uma beleza majestosa. Então avançávamos sobre ela.

Em solo paulista, sobre o asfalto quente deparávamos com uma subida acentuada em curva a esquerda. Neste ponto obrigatoriamente empurrávamos a bicicleta.

No plano já a pedalar, a esquerda avistava um pouco mais além a cadeia e logo então a churrascaria.

No declive e já sem pedalar, visualizava o posto de gasolina desativado, com suas paredes curvas e vitraux quadriculado, tinha se transformado no salão de baile. Logo a seguir, a casa de dona Bela com o bazar à frente.

Já visualizávamos parte da praça e a curva a direita. Então ao bar do Tico nós chegávamos, na verdade bar Fronteira. Lá tomávamos sorvete para então ao Carumbé retornar.

Episódio Dois: A Mãe D'água

Algumas noites, após o jantar todos na sala a sentar e a postos para televisão assistir. Decepção! Não tinha sinal, só chuviscos na tela a olhar. Meu pai pedia que fosse ao bar do Bandeira, saber o motivo de tal desatino.

Na noite só com a minha bicicleta a pedalar eu ia, na companhia do luar com os prismas dos cristais do saibro a brilhar. A beira do caminho, touceiras de capim recobertas de pó, podia observar.

Confesso! O medo se apresentava. Mas como homem, não poderia deixá-lo manifestar. Eu ia, com minha mente em assombração pensando. Arrepiava-me, ao passar pelo "olho d'água". Acreditava que a mãe d'água viria me pegar. Então eu era só pedalar. Tanta bobagem! Na adolescência fui entender estas crendices populares, são estórias e parte de nosso folclore.

Para alívio, ao alcançar a bifurcação para  Curitiba, iluminação pública encontrava. Lâmpadas mortíferas amareladas, num constante pulsar. Eram atarraxadas em arandelas metálicas onduladas e fixadas por hastes aos postes de madeira lavrada.

Logo à direita, ao bar do Zé Bandeira chegava. O bar era o local para as informações receber. Ali captavam a energia elétrica necessária, para a torre da antena retransmissora. Invariavelmente o motivo era: "Chuvas & Raios".

Atento as recomendações de meu pai: "pé lá, pé cá", num pulo saia a pedalar. No retorno, as mesmas manifestações e aflições. Só tranqüilizava, após passar o "olho d'água" já na curva passando em frente à casa do Fernando Polli.

Continuando a pedalar, já na reta ao longe avistava a cabeceira da ponte, e a direita a casa do Jairo e Valdemar. Já esboçava um sorriso, estava quase chegando.

Um pouco mais a pedalar, agora sobre a laje da ponte, ao longe uns trezentos metros à frente minha casa a se mostrar, refletindo a luz da varanda acesa.

Só mais um pequeno tope, então as margens da estrada alcanço o pórtico de entrada. Eram duas traves equidistantes de tronco de arvores com forquilhas nas pontas, caprichosamente escolhidas por meu pai e afincadas rigorosamente a prumo. Apoiavam um travessão, o qual suportava por correntes uma prancha de madeira dependurada, onde se lia em letras brancas, "Fazenda Carumbé".

Agora relaxado, no embalo e quase sem pedalar sigo em direção da casa. No frescor da noite sinto o aroma de goiaba no ar a flutuar. Ao redor da casa eram inúmeros pés. Escutava o barulho das folhas secas movimentadas pelo vento, a esfregar pelo chão. Em profusão visualizava um mosaico assimétrico desenhado pelo chão, resultante das sobras dos galhos sob o luar, refletidos.

Episódio Três : O sorveteiro

A necessidade de subsistência é inerente à vida. Assim, sempre existiu a necessidade de cada um, como pode defender o seu.

Isto faz lembrar alguns vendedores ambulantes do Paranaí. Com seus cestos de vime a mão e seus quitutes, como pastel. Também de sorveteiros com suas caixas de "isopor" dependuradas ao pescoço, ofertando seus picolés.

Destes, em especial lembro um sorveteiro. Seu nome não vem à memória. Senhor magro, alto e já de certa idade, pelo menos na visão de uma criança. O que mais chamava a atenção eram seus óculos, descansados a ponta do nariz. Com armação dourada e redonda, com lentes de alto grau, tendendo a verde.

Caminhava muito ofertando seus sorvetes. Muitas vezes chegava até o Carumbé, onde meu pai junto dos camaradas, na lida com o gado estava. Nesta terra onde o calor nunca é ausente, assim podia eles ter alguns minutos de frescor.

Era uma pessoa de uma simplicidade descomunal, vendia sorvetes fiado a uma criança, eu. Para saldar tal dívida, tive que recorrer a minha mãe. Como toda mãe, socorreu sua cria, pagando a dívida equivalente a uns picolés.

Este episódio foi exemplar, tirei como aprendizado de conduta e responsabilidade. Lembro bem, foi uma nota de mil cruzeiros, vigente a época. Aquela de face abobora e contra face azul.

Sem contar a repreensão e admoestação sofrida e necessária. Acredito foi uma das primeiras forjadas de meu caráter.

Passado pouco tempo, fico sabendo , o sorveteiro faleceu.

Numa destas caminhadas a ofertar seus sorvetes, a rota do Rocha tomou. Não sei bem onde, mas existia uma trilha que do Paranaí dobrando se além morro, alcançava o vale do Ribeirão do Rocha.

No período de sua falta, muitos populares acreditavam ter ele sido atacado por bicho selvagem. Onça Suçuarana, aquela parda, pelas bordas das matas nativas, hoje Parque Estadual das Lauráceas, eram comum.

Após muito procurar, na trilha para o Rocha, seu corpo foi encontrado, já desfalecido, teve um mal súbito.

Concluo  aqui mais uma parte dos registros memoriais do Autor João  Marcelo  Ferraz de  Campos, já anciosa pelas muitas outras edições!

Até lá!

 

 

 

Cultura - Folclore

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Fotos : Lauro Olegário.

Mais uma vez Adrianópolis sai na frente e faz sucesso total na região ao promover o Grito de Carnaval na Praça Central da cidade...

Muito descontraídos e animados, a comunidade local e visitantes de toda a região curtiram o evento que aconteceu nos dias10 e 11 de fevereiro ao som das bandas que animaram a todos  como:Sexta -feira Banda LEFIGARROO e DJ KAUL WILLIAN, no sábado a animação foi por conta da Banda  CLAN KEBRADERA BRASIL e ERICNETO E BANDA e novamente a continuidade do DJ KAUL WILLIAN.A alegria foi contagiante, muita gente bonita, sorrisos, e muita diversão, juventude feliz, famílias presentes, opções de barracas com comes e bebes para servir os presentes.O evento contou com a presença dos patrocinadores João  Manoel e seu Vice Fábio Dorizon  e  do Presidente da Câmara Municipal Sandro Santos que festejaram com o povo, felizes  por proporcionar  esse momento a todos os presentes.

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Veja todas as fotos nos albuns:

Facebook de Adrianópolis Paranai.  http://www.facebook.com/profile.php?id=100002999105200&sk=photos

Adrianópolis 2009 / 2012 (Oficial). http://www.orkut.com.br/Main#AlbumList?rl=ls&uid=62075900108813161


FOTOS - LAURO OLEGÁRIO.

 

 

 

 

Cultura - História

 Foto cedida pelo Autor João Marcelo Ferraz  de Campos.

 

 

                                                                                INTRODUÇÃO....

Penso que o tempo pode não voltar mais. Se fizemos certo ou errado isso não tem importância, desde que claro, isso não tenha custado a vida de alguém... Mas entendo que sim, a vida pode voltar nas recordações, e como é bom recordar e ter saudades dos tempos idos, não é? Eu por exemplo uso minhas recordações para sempre avaliar tudo que já vivi. O tempo de fato não volta, mas podemos fazer dele nosso melhor aliado pra momentos futuros. Mas como  ia dizendo, a vida é mesmo cheia de surpresas... E Há sempre alguém na vida da gente... Alguém que aparece sorrindo, alguém que nos deixa com a emoção á flor da pele ao nos fazer perceber o quanto temos em comum na história de vida, de realidades, de recordações... De tempos que marcaram nossas vidas! Tempos onde não nos preocupávamos com o que aconteceria amanhã, o que faríamos amanhã não tinha importância. Vivíamos e aproveitávamos o hoje. Sem preocupações, brigas e ilusões. Tempos onde achávamos que cair o braço da boneca seria a pior coisa que poderia nos acontecer. Não víamos maldade, nosso mundo era nosso quarto cheio de brinquedos, onde passávamos horas brincando de algo que hoje já não faria tanto sentido. Tempos onde tudo era maravilhoso, onde as cores eram vivas, os animais, as pessoas e até os instantes tinham mais valor. Por quê? Pelo simples fato de que não nos preocupávamos que tudo passaria, apenas aproveitávamos ao máximo tudo. Tempos onde todos eram amigos e as brigas não tinham efeito. Tempos onde éramos crianças e sabíamos dar valor à vida com simples atitudes que faziam parte do nosso dia-a-dia. Hoje restam apenas lembranças de uma época que nunca será esquecida, porque nessa época fizemos a melhor das descobertas: "A FELICIDADE".

( Lúcia Santos)

                                                             

  Biografia do Autor

  João Marcelo Ferraz de Campos

 Infância:

 • Nasci na cidade de Jacareí SP, aqui no vale do Paraíba em 23/06/1960, porém fui registrado em 30/06/1960, portanto, a data oficial de aniversário.

• Segundo filho de Alice Bueno de Toledo Campos & José Waldir Ferraz de Campos.

• Com dois meses de idade, migro com a família para Adrianópolis. Minha mãe professora efetiva do estado de São Paulo, "escolhe cadeira" uma escola isolada, existente além do rio, defronte a oficina mecânica da Plumbum.

• 1966_ Apresento ao mundo escolar, o "pré-primário", com as brincadeiras de pintura e colagem, na casa da dona Cida professora, na "Vila do Alto".

 • 1967_ Minha alfabetização, no Grupo Escolar "Adriano Seabra da Fonseca", primeira turma na cartilha "Caminho Suave", até então, tinha sido na cartilha " Patinho Feio".

 • 1968/1969_ Segundo e terceiro ano escolar no Ginásio Estadual "Dr. Saddock de Sá", já na cidade de Adrianópolis- sede.

 • 1970_Estudo no Grupo Escolar de Ribeira, preparando para o temido exame de "admissão", o qual permitia ingressar no ginásio.

 Adolescência:

 • 1971_ Retorno ao estado de São Paulo, precisamente ao Vale do Paraíba, fixando residência em São José dos Campos, cidade vizinha a Jacareí SP.

 • 1971/1974_Curso o Ginásio no colégio do Lions Club, Ginásio Estadual "Dr. Mauricio Anisse Cury".

 • 1975/1979_Curso o Colegial Técnico ofertado pela ETEP-Escola Técnica "Professor Everardo Passos", na especialidade Técnico Mecânico.

Adulto:

 • 1979_Em setembro inicia a minha vida profissional, como estagiário, trabalho na Ethicon Suturas, subsidiária da Johnson & Johnson.

• 1980_Ingresso como funcionário do CTA-Centro Técnico da Aeronáutica, mais precisamente no IEAV-Instituto de Estudos Avançados.

• 1982_Transfiro para a EMBRAER-Empresa Brasileira de Aeronáutica, onde até o presente trabalho.

 • 1984/1988_Estudo Arquitetura e Urbanismo na Universidade Brás Cubas em Mogi das Cruzes SP.

 Atual:

 - 2012_Casado desde 1988 com Maiara Comodo, também Arquiteta, temos dois filhos:

 - Thiago Comodo de Campos (21 anos);

 - Raphael Comodo de Campos (17 anos),

 - Trabalha na EMBRAER na Engenharia de Peças de Reposição/ Catálogo Ilustrado de Peças.

São José dos Campos 21 de janeiro de 2012

 email= jmarcelo_campos@yahoo.com.br

Tel Res= (12) 3921 4321 / Com (12) 3927 6736 & Cel (12) 8850 4543.

  

Introdução

 

 

Há pessoas e pessoas... Uns com alto grau de sensibilidade humana e outros 0% insensíveis: - Fato!

Pessoas com a emoção á flor da pele e outras petrificadas e sem nenhum sentimento! Inteligência todo mundo tem!

Mas sensibilidade, emoção, percepção e sentimentos são valores cultivados no dia- a -dia de quem sabe o que é viver!

 Quem já viveu de verdade e sentiu na pele todas as emoções é que sabe recordar, relembrar e recontar em detalhes as "Histórias que a vida conta e que a gente escreve". É de pessoas assim, dotadas desses valores que eu gosto de conhecer! Gente que registra na memória suas vivências e aprendizagens, que repagina e compartilha suas experiências, que faz você sentir-se parte dessa História que é de todos nós! Gente que vai embora de Adrianópolis, mas deixa seu coração aqui arraigado no tempo, na história, nas pessoas, nos costumes e até nas comidas, nas autoridades daquele tempo, nas brincadeiras e diversões, naquilo que talvez para os padrões dos dias atuais seja considerado brega, desatualizado, fora de época. Mas para quem tem memória e coração é para sempre! Estou editando aqui, uma obra escrita por João Marcelo Ferraz Campos que tão bem descreve seus tempos vivenciados nessa nossa amada terra. Difícil mesmo é á gente não se sentir parte disso tudo! A esse sentimento eu chamo de "pertencimento".

 Acompanhem:

 Tema: "Sou do Tempo..."

 I Parte

 

 

A força da tecnologia disponibiliza e proporciona resgatar o passado e vislumbrar o futuro. Ela trás o ontem para hoje e o amanhã para o agora.

 Tenho minha história pessoal atrelada a este pedaço de chão. É verdade já a muito, longe da barranca do rio Ribeira e dos banhos no Carumbé.

 Inicio pedindo permissão a vocês, Adrianopolitenses, pois a minha visão fotográfica, o filme que desenrola em minha memória tem como cenário, o Paranaí.

 Cheguei aí em 1960, com dois meses de idade. Direto para a barranca do Ribeira, próximo à vila operária da Plumbum. Já fui rasgando o rio na canoa de “seo” Gabriel. Para minha mãe, professora, na escola isolada tomar posse.

Em poucos dias, meu pai já funcionário da companhia e minha mãe, em jornada integral dando aula, no período matutino no estado de São Paulo e no vespertino no Grupo Escolar Adriano Seabra da Fonseca, escola mantida pela Plumbum. Assim, neste cotidiano foi desenrolando e acontecendo minha história.

- Sou do tempo, das festas juninas com enormes fogueiras, promovidas na vila “do alto”.

- Sou do tempo, em que o grupo escolar mantido pela Plumbum, seria referência a qualquer escola atualmente. Tão bem dirigido pela dona Helga, a diretora. Apoiada por professoras comprometidas, como a Dona Rossio, Alvara, Cinira, Aparecida, Judith e tantas outras, incluindo também minha mãe, Alice. 

 - Sou do tempo, que datas cívicas eram respeitadas. Tínhamos os desfiles de 7 de Setembro, o qual era de uma organização e pompa sem igual. Posteriormente ao desfile ocorria a distribuição de “carnes de churrasco” a todos.

 - Sou do tempo que todos os domingos íamos à missa.   Da vila ”do alto” pegávamos o ônibus gratuito e descíamos à capela, próxima ao Grupo Escolar. Capela de uma beleza singular, com uma arquitetura ímpar toda feita em madeira, muito característico e comum à época.

 -Sou do tempo em que passear nos finais de semana, era irmos, meu irmão, minha irmã e eu na DKW Vemag com meus pais, Waldir e Alice sentido vila Mota até a balsa de Itaoca, depois no retorno visitar o “seo” Alcy Melo em sua fazenda com a sua casa de pedra. Eu adorava o churrasco de cordeiro, o qual ele ora ofertava, e tão bem recebia-nos com sua esposa de qual o nome não me lembro.

 -Sou do tempo, que biruta era o ”coador de pano” indicador da direção do vento instalado no campo de pouso existente entre o rio e a vila Mota.

 -Sou do tempo, em que ser criança era ser livre, andar pela vizinhança, ser querido, recebido e reconhecido como filho da “dona” Alice e ou do “seo” Waldir.

 -Sou do tempo que cinema era ao ar livre, todas as sexta feira lá na vila “do alto” com todos sentados nos degraus da cantina. Eu maravilhava com o seriado do Fash Gordon, precursor dos já não tão modernos, Jornadas nas Estrelas.

 -Sou do tempo, que sábado era dia de faxina, tirava-se o tapete da sala, debruçando-o no gradil de madeira da varanda, coisa característica das casas. Então era um passar de gasolina no assoalho e um lustrar com escovão, num contínuo vai e vem.

-Sou do tempo, no qual era possível conhecer pessoas tão dignas, austeras, zelosa para com sua prole, como a dona Aracy, mulher do seu Cassiano. Mas também de uma generosidade para com os outros, trago ainda no meu olfato o delicioso cheiro dos sonhos recheados com doce de banana, os quais, ela sabia tão bem preparar.

-Sou do tempo, que carpinteiro era também marceneiro, como o “seo” João Fischer. Até a bem pouco tempo tínhamos exemplares de sua obra, duas camas por ele projetadas e executadas, com seus pés inclinados, autêntica arte retro.

 -Sou do tempo, que Campeiro era um enorme cachorro, de pelagem amarela, parecido com um Labrador. Adorava perambular pela cantina, ou ficar próximo da sala do seu Quinzinho, chefe do transporte.

 - Sou do tempo, que médico era o Dr. Barcik. Um homem que jamais poderia ser esquecido. Dedicou sua vida ao bem estar dos mineiros e populares.

-Sou do tempo, de “seo” Hilário, um espanhol especialista em mineralogia. Pai do Zé Carlos pia amicíssimo de meu irmão Zé Waldir, o qual possuía um cachorro “policial”, de pelos encaracolados, chamado Crush.

 No início de 1967, sou apresentado e levado para o Carumbé.

 Meu avô paterno, José Pereira de Campos tinha vendido sua fazenda aqui no Vale do Paraíba, no estado de São Paulo. Então ele e meu pai, José Waldir Ferraz de Campos, vão os dois empreender o que chamo de: A Criação e Desenvolvimento da Bacia Leiteira do município de Adrianópolis.

 Então deixamos a mina de Panelas e mudamos para a fazenda Carumbé, adquirida da família Mottin. A fazenda tem o mesmo nome do ribeirão que vem lá da Serra, além da entrada do Rocha, serpenteado a estrada de Curitiba. É a caracterização física de divisa entre a fazenda Carumbé, as terras de um italiano, o qual o nome não recordo e o sítio do Benjamim Fogaça.

 -Sou do tempo, que o leite diariamente coletado dos sertões de Itaoca, Descampado e Epitácio e outras regiões, vinham pernoitar na câmara fria da fazenda. Para na aurora do dia seguinte “seo” Alberto ou seu irmão Manoel transportar para a cooperativa em Curitiba.

-Sou do tempo das estradas de terra, porém muito bem conservadas com saibro e niveladas constantemente pela “patrol”.

-Sou do tempo, que o asfalto era só cruzando a ponte com seus dois arcos paralelos, unindo o Paraná a São Paulo.

-Sou do tempo, do tráfico intenso de caminhões. Do frenesi dos Ford e Chevrolet de quatro faróis e ainda com carrocerias de madeira, transportando o minério do Rocha para a mina de Panelas. -Sou do tempo, das "tombeiras" como eram chamadas as poucas basculantes. Lembro especialmente de uma, da marca FNM, na cor amarela e preta pertence ao DER. Esta trazia diariamente estudantes moradores no alto da serra, além da bifurcação para o Epitácio, sentido Curitiba. 

-Sou do tempo, que uniforme escolar era um guarda-pó branco e congas nos pés.

 -Sou do tempo, que ainda não existia a praça. Somente um enorme terreno, com um relógio de sol em frente ao portão do Grupo Escolar Dr. Saddock de Sá.

 -Sou do tempo, que iniciávamos nossas atividades escolares diárias, no pátio interno do colégio, em ordem unida, rigorosamente perfilados cantando o Hino Nacional.

 -Sou do tempo, que lá do alto da Igreja ou do portão da escola, podia se ver já no plano, o posto de gasolina do Hilmo Mottin (pai do João Helder), teimosamente branco com seus contornos em vermelho, ostentando a bandeira "ESSO".

 -Sou do tempo, que com pouco caminhar sentido Curitiba, alcançávamos o sítio do Benjamim Fogaça, onde me divertia vendo a força da agua, movendo o monjolo e a roda d'agua.

 -Sou do Tempo, que para acessar cidades além de Apiaí, somente nas madrugadas das segundas quando o ônibus da aviação Penha saia da praça da cidade de Ribeira.

 -Sou do tempo, que telefone era só no posto telefônico de Ribeira.

 -Sou do tempo, das campanhas de vacinação. Onde era notório o profissionalismo, o desprendimento e a determinação de dona Bela e sua equipe.

 Aliás, aproveito para registrar e ratificar, mesmo in memoriam, os maiores e melhores sentimentos de respeito e gratidão de nossa família para com a família Tramontin.

 - Sou do tempo, que televisão era sonhos de alguns poucos loucos, como o Urano que instalou a primeira "antena rômbica", repetidora de sinais de TV para a cidade. No morro em frente à encruzilhada de Curitiba para a Plumbum.

 -Sou do tempo, em que aos domingos muitos se reuniam no ribeirão Carumbé, no "poço da ponte" para democraticamente se banhar, pois o calor nesta terra é presente. Pouco abaixo, muitos traziam seus carros para lavar. Era tudo uma enorme festa.

-Sou do tempo, que onde hoje existe a captação de água para a cidade (SANEPAR) era um "olho d'agua" pertencente à chácara da mãe do Fernando. Aliás, lembro que eles cultivavam abelhas, com a cera ele esculpia maravilhosas réplicas de calhambeques.

-Sou do tempo, que a política era bipartidária, existia a ARENA e o MDB. O Hilmo Mottin e o Antônio de Souza (pai do Sidival), como líderes políticos apoiaram um deputado chamado Kielse. O governador era o Paulo Pimentel.

-Sou do tempo, que Valdemar e Jairo, eram dois irmãos moradores próximo da cabeceira da ponte do rio Carumbé, irmãos da Anita, tinham como padrasto um senhor que era policial florestal. O qual adorava cavalos e era criador de passarinho, Azulão. Muitas noites os dois irmãos, vinham à minha casa assistir TV. Envergonhado, preferiam ficar sentados na varanda, através do vitraux assistindo.

 -Sou do tempo, que após as missas nas manhãs de domingo, reuníamos no bar em frente ao sobrado do Mottin. Lá um dos filhos do dono do bar, conhecido por "tupãzinho" coordenava para que, caminhando alcançássemos um campinho de terra batida, bem atrás carpintaria. Ou então seu irmão nos levava de camionete pela estrada da Plumbum, até a encruzilhada do Descampado onde existia um campo.

-Sou do tempo, que para alcançar o Epitácio pelo caminho do Descampado, era necessário atravessar o Ribeirão Grande, pois ponte ali não havia.

 -Sou do tempo, em que colegas estudantes, moradores no arraial onde existia a venda do Antônio de Souza, muitas vezes optavam em não esperar o ônibus. Então, atreviam-se  em fazer tão boa caminhada. Destes, eu lembro o filho do próprio Souza e uma menina, estudante na época na minha classe, a Maria da Luz. Seu pai também comerciante possuía uma venda no pé do tope do morro, de  frente para a bifurcação para o Descampado e campo de futebol. -Sou do tempo, que o campo de futebol era de terra batida. Lá percebi a força da colônia italiana e sua paixão pela pelota, ouvi muitas vezes palavras como "golo" e "off- side"

 -Sou do tempo, de reencontros. Agora dona Aracy, seu Cassiano e seus filhos, Vavá, Preto, Chito, Nenê, Diógenes estão morando em Paranaí. Um pouco antes da "praça" próximo da farmácia do Walmor e do Açougue.

 -Sou do tempo, em que alguns domingos de verão, minha casa enchia-se de amigos, tais como, o Dr. Otto e família, Dr. Marcos Zacarelli e família, dona Bela e "seo" Acácio e tantos outros, para um churrasco e banhos no Carumbé.

 -Sou do tempo, em que chamava garoto de "pia" e refrigerante de "gasosa".

 -Sou do tempo, em que ao entrar no bazar do(BENEDITO) Marques, onde minha mãe comprava produtos de armarinho, ficávamos maravilhados ao ver bolas e brinquedos dependurados, numa profusão colorida de cores.

-Sou do tempo, em que no campo de futebol de Ribeira, já gramado, localizado bem atrás da cadeia via-se pelos barrancos, muita gente sentada de cócoras cada qual com seu radinho de pilha ouvindo o locutor dizer "Palinha, o conhaque das multidões" e não menos atentas ao clássico local, de um lado o Fronteira, com seu uniforme alviverde e de outro a Associação com o seu alvinegro. Penso que aí, despertou a minha paixão pelo Corinthians.

 -Sou do tempo, em que diariamente minha mãe ao volante do DKW, nos levava a escola. Sem nunca negar carona a alguns de muitos outros alunos, facilmente identificados pelo guarda-pó branco, caminhando em fila indiana a beira do caminho.

 -Sou do tempo, em que nas noites de verão meu pai sentado da varanda mirando a leste, adorava ver o levantar da lua cheia refletindo sua luz nos coqueiros e pedras no alto do morro.

-Sou do tempo, da consciência que esta dimensão representa o finito. No final de 1970, meu avô, decide vender o Carumbé, para um fazendeiro lá das bandas de Itaoca, seu nome Januário Tranin. Que mundo pequeno, sua origem é daqui de Jambeiro, município vizinho a minha cidade, São José dos Campos - SP.

 Em fim, sou do tempo... De Paranaí!

 Autor: João Marcelo Ferraz de Campos

Encerro esta edição com elevados votos de estimas e consideração, por ser privilegiada ao ter encontrado através das redes sociais -

 (face e do site http://www.afolhadeadrianopolis.com.br/ o Sr. João Marcelo Ferraz de Campos que também é um de nós).

Mais uma pessoa que me dá a oportunidade de editar mais uma das páginas da nossa história através do site da Folha de Adrianópolis .

 

 

 

Muito obrigado!

 

 

Lúcia Santos – Editora.

 

Fotos dos bons e velhos tempos de PARANAÍ:

 

 

 

Fazenda Carumbé-família Ferraz de Campos-1968.Foto cedida pelo autor.

 

  

 

 

Ponte e Rio Carumbé-1968.Foto cedida pelo autor.

 

  

 

 Plumbum-Casa do  DR OTTO-1968.Foto cedida pelo Autor. 

 

  

 

  

 

  

 

  

 

  

 

 

  

 

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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